Sócrates: vida, ideias, método e o que ler para conhecer o filósofo que nunca escreveu um livro
Olá, meus amigos! Aqui estamos com um texto sobre filosofia. É um tema novo no blog, mas que pretendo explorar sempre que possível, devido a sua importância histórica e sua relevância durante várias outras leituras. Afinal, nada melhor do que estar lendo um livro mais moderno e pegar referências de obras mais antigas, não é mesmo? Isso enriquece demais a experiência de ler. Então, vamos lá.
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O ponto mais interessante de Sócrates é justamente o paradoxo: ele é um dos filósofos mais influentes da história e não deixou nenhuma obra escrita. Para conhecê-lo, precisamos reconstruí-lo a partir de outras pessoas — principalmente Platão e Xenofonte, mas também Aristófanes. Isso permite explicar ao leitor por que “ler Sócrates” é diferente de ler Platão ou Aristóteles.
Poucos filósofos exerceram uma influência tão profunda sobre a história do pensamento ocidental quanto Sócrates. Considerado por muitos como uma das figuras fundadoras da filosofia ocidental, Sócrates dedicou sua vida a uma atividade aparentemente simples: conversar.
Ele perguntava às pessoas o que significavam palavras como justiça, coragem, virtude, conhecimento e piedade. Questionava políticos, poetas, artesãos e homens considerados sábios. E, muitas vezes, suas perguntas levavam seus interlocutores a perceber que não sabiam explicar aquilo que afirmavam saber.
Mas existe uma curiosidade fundamental sobre Sócrates: ele não escreveu nenhum livro.
Tudo o que sabemos sobre seu pensamento chegou até nós por meio de outras pessoas, principalmente Platão e Xenofonte. O dramaturgo Aristófanes também deixou uma representação de Sócrates, embora bastante diferente das imagens apresentadas por seus discípulos.
Por isso, conhecer Sócrates exige um pouco mais de cuidado do que simplesmente pegar um livro chamado “Obras completas de Sócrates”. Essas obras não existem.
Para entender o filósofo, precisamos primeiro compreender sua vida, seu método e o chamado problema socrático: afinal, quanto do Sócrates apresentado por Platão corresponde ao Sócrates histórico?
Quem foi Sócrates?
Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470/469 a.C. e morreu em 399 a.C., aos aproximadamente 70 anos. Passou praticamente toda a sua vida em Atenas, onde ficou conhecido por conversar com diferentes pessoas e questionar suas opiniões sobre assuntos relacionados principalmente à vida humana, à moralidade e à virtude. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Ao contrário de muitos filósofos posteriores, Sócrates não fundou uma escola no sentido tradicional e não deixou tratados sistemáticos explicando sua filosofia.
Ele também não parece ter cobrado dinheiro por suas conversas filosóficas, algo que o diferenciava dos sofistas, professores profissionais que ensinavam, entre outras coisas, retórica e argumentação mediante pagamento.
Sua atividade filosófica acontecia principalmente através do diálogo.
Sócrates conversava.
Perguntava.
Escutava a resposta.
Fazia outra pergunta.
Mostrava uma possível contradição.
Perguntava novamente.
E, muitas vezes, a conversa terminava sem uma resposta definitiva.
Essa característica é essencial para compreender sua filosofia.
Sócrates não escreveu nenhuma obra
Essa é provavelmente a primeira coisa que qualquer pessoa que queira estudar Sócrates precisa saber.
Não existe nenhuma obra escrita pelo próprio Sócrates que tenha sobrevivido até os dias atuais — e a tradição antiga indica que ele não deixou escritos filosóficos. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Isso significa que livros como Apologia de Sócrates, Críton e Fédon não foram escritos por Sócrates.
Eles foram escritos por Platão, que coloca Sócrates como personagem central.
Isso pode parecer apenas uma curiosidade bibliográfica, mas é uma questão filosófica muito importante.
Quando lemos Platão, estamos lendo Platão escrevendo sobre Sócrates. Portanto, surge uma pergunta difícil:
Estamos realmente conhecendo o pensamento de Sócrates ou estamos conhecendo o Sócrates que Platão criou literariamente?
A resposta não é simples.
O problema socrático: quem foi o verdadeiro Sócrates?
Como Sócrates não escreveu suas próprias ideias, os historiadores e filósofos precisam recorrer às pessoas que escreveram sobre ele.
As três principais fontes antigas são:
- Platão
- Xenofonte
- Aristófanes
Há ainda outros autores que escreveram diálogos socráticos, mas suas obras chegaram até nós apenas de maneira fragmentária ou não sobreviveram. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
O problema é que essas fontes apresentam retratos diferentes.
Platão
Platão foi discípulo de Sócrates e é, de longe, a fonte mais importante para a tradição filosófica posterior.
Em seus diálogos, Sócrates aparece frequentemente como personagem principal, interrogando outras pessoas e investigando conceitos como justiça, coragem, piedade, conhecimento e virtude.
Porém, Platão escreveu durante décadas. Por isso, o Sócrates que aparece em seus primeiros diálogos não necessariamente é idêntico ao Sócrates que aparece em obras posteriores.
Uma interpretação bastante influente entre os estudiosos distingue aproximadamente um Sócrates dos diálogos iniciais de um Sócrates que passa a apresentar ideias associadas ao próprio desenvolvimento filosófico de Platão.
Nos diálogos considerados mais próximos da fase socrática, encontramos sobretudo investigações éticas e o famoso método de perguntas e refutações. Já em obras como Fédon, República e Banquete, aparecem teorias filosóficas muito mais desenvolvidas, incluindo a teoria das Formas e discussões sobre a natureza da alma. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Por isso, não devemos simplesmente atribuir tudo o que o personagem Sócrates diz nos diálogos a Sócrates histórico.
Essa distinção é fundamental.
Xenofonte
Xenofonte foi outro contemporâneo que escreveu sobre Sócrates.
Era soldado, historiador e discípulo de Sócrates, e deixou várias obras nas quais o filósofo aparece, entre elas:
- Memoráveis (Memorabilia);
- Apologia de Sócrates;
- Banquete;
- Econômico (Oeconomicus).
O Sócrates de Xenofonte é, em vários aspectos, diferente do Sócrates de Platão. Ele aparece mais frequentemente como um homem prático, moralmente disciplinado e interessado em aconselhar seus interlocutores sobre assuntos concretos. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Por isso, Xenofonte é uma fonte importante para comparar com Platão.
Aristófanes
Aristófanes oferece uma perspectiva completamente diferente.
Ele era um dramaturgo ateniense e retratou Sócrates em sua comédia As Nuvens, apresentada originalmente em 423 a.C.
O Sócrates de Aristófanes é uma figura satírica: aparece associado a especulações sobre a natureza, argumentação e práticas intelectuais que poderiam parecer subversivas para a sociedade ateniense.
Não devemos tomar uma comédia como se fosse uma biografia objetiva. Mesmo assim, As Nuvens é extremamente importante porque mostra que Sócrates já era uma figura pública controversa durante sua própria vida. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Além disso, na Apologia, o próprio Sócrates apresentado por Platão afirma que as acusações e caricaturas difundidas sobre ele por Aristófanes contribuíram para criar uma imagem negativa a seu respeito. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
O que Sócrates realmente ensinava?
Aqui precisamos ter cuidado.
Como não temos escritos de Sócrates, não existe uma lista completamente segura de “doutrinas socráticas”.
Mesmo assim, algumas ideias e práticas aparecem repetidamente nas fontes e são fundamentais para compreender a tradição socrática.
1. A importância de examinar a própria vida
Uma das ideias mais famosas associadas a Sócrates aparece na Apologia de Sócrates.
A filosofia não deveria ser apenas uma coleção de informações. Ela deveria transformar a maneira como uma pessoa vive.
Para Sócrates, uma vida que nunca é examinada — uma vida em que simplesmente aceitamos opiniões, costumes e valores sem questioná-los — é uma vida intelectualmente deficiente.
Por isso, filosofar significa perguntar:
Por que acredito nisso?
Como sei que isso é verdade?
O que significa aquilo que estou dizendo?
Estou realmente vivendo de acordo com aquilo que considero correto?
A filosofia, nesse sentido, deixa de ser apenas estudo teórico e passa a ser uma forma de vida.
2. “Só sei que nada sei”?
Essa é provavelmente a frase mais famosa associada a Sócrates.
Mas é importante ter cuidado com ela.
A formulação popular “Só sei que nada sei” é uma simplificação da posição apresentada na Apologia.
A ideia central é que Sócrates reconhece a própria ignorância e percebe que muitas pessoas que se consideram sábias não possuem o conhecimento que imaginam possuir.
Na narrativa de Platão, Sócrates começa a investigar a afirmação do oráculo de Delfos de que ninguém seria mais sábio do que ele.
Sua investigação leva-o a perceber uma diferença importante:
Sócrates sabe que não sabe, enquanto outras pessoas podem não saber e, ao mesmo tempo, acreditar que sabem.
Essa consciência da própria ignorância se torna um ponto de partida para a investigação filosófica.
Não significa que Sócrates simplesmente acreditasse que absolutamente nada pudesse ser conhecido.
Significa, sobretudo, que devemos reconhecer os limites do nosso conhecimento.
3. O método socrático
Uma das maiores contribuições de Sócrates para a filosofia foi sua maneira de investigar problemas através do diálogo.
Esse procedimento ficou conhecido como método socrático e está relacionado ao termo grego elenchos, frequentemente traduzido como “refutação” ou “exame”.
O funcionamento básico pode ser representado assim:
- Uma pessoa afirma saber o que é determinada coisa.
- Sócrates pergunta o que exatamente ela quer dizer.
- O interlocutor apresenta uma definição ou explicação.
- Sócrates faz novas perguntas.
- As respostas são comparadas com outras afirmações feitas pelo próprio interlocutor.
- Surge uma contradição ou dificuldade.
- O interlocutor percebe que sua definição inicial não era suficiente.
- A investigação pode terminar em uma situação de aporia, isto é, uma perplexidade ou impasse.
O objetivo não era simplesmente “ganhar uma discussão”.
O método buscava revelar que uma pessoa talvez não compreendesse aquilo que pensava compreender.
A elenchus funciona justamente explorando as próprias crenças do interlocutor e verificando se elas podem ser mantidas de maneira consistente. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
4. A busca por definições
Imagine alguém dizendo:
“Eu sei o que é coragem.”
Sócrates provavelmente perguntaria:
“Então o que é coragem?”
Se a pessoa respondesse:
“Coragem é enfrentar o inimigo.”
Sócrates poderia perguntar:
“Mas uma pessoa pode enfrentar o inimigo de maneira imprudente e, ainda assim, isso ser coragem?”
A conversa continuaria.
O objetivo seria descobrir se a definição realmente explica o que é a coragem, ou apenas fornece um exemplo de comportamento que às vezes consideramos corajoso.
Esse tipo de investigação aparece repetidamente nos diálogos platônicos.
Sócrates pergunta o que é:
- justiça;
- coragem;
- temperança;
- piedade;
- beleza;
- virtude;
- conhecimento.
E muitas vezes a conversa termina sem uma definição definitiva.
Isso não significa que o diálogo fracassou.
O próprio reconhecimento de que uma resposta aparentemente óbvia não funciona pode ser o primeiro passo para uma investigação mais rigorosa.
5. Virtude e conhecimento
Grande parte da filosofia socrática gira em torno da virtude.
Para Sócrates, a pergunta fundamental não é simplesmente:
“Como posso ficar rico?”
ou:
“Como posso conquistar poder?”
mas:
“Como devo viver?”
A busca pela virtude está ligada ao cuidado da alma e à busca pelo conhecimento sobre aquilo que é realmente bom.
Os diálogos socráticos frequentemente investigam se virtudes como coragem, justiça e temperança podem ser compreendidas como formas de conhecimento ou se podem ser ensinadas. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Isso produz algumas ideias extremamente importantes da tradição socrática, incluindo a relação entre:
conhecimento → virtude → boa vida.
6. Ninguém faz o mal voluntariamente?
Outra tese frequentemente associada ao Sócrates dos diálogos é a ideia de que uma pessoa que realmente conhece o bem não escolheria voluntariamente fazer o mal.
Em outras palavras, existe uma forte relação entre ignorância e comportamento moralmente errado.
Essa posição posteriormente ficou conhecida como intelectualismo socrático.
Ela levanta uma pergunta fascinante:
Se uma pessoa realmente soubesse o que é bom para si e para os outros, ela ainda escolheria conscientemente fazer o mal?
Essa questão continua sendo discutida pela filosofia até hoje.
7. O cuidado da alma
Sócrates também desloca a atenção filosófica para algo que se tornaria central na tradição ocidental: o cuidado da alma.
Para ele, riqueza, reputação, poder e aparência não deveriam ser considerados mais importantes do que a qualidade moral da própria pessoa.
Isso aparece de maneira particularmente forte na Apologia, em que Sócrates defende uma vida dedicada à investigação e à preocupação com a virtude.
A filosofia passa, assim, a ser entendida não apenas como uma atividade intelectual, mas como uma prática de transformação pessoal.
O julgamento e a morte de Sócrates
Em 399 a.C., Sócrates foi levado a julgamento em Atenas.
As acusações estavam relacionadas à impiedade — não reconhecer adequadamente os deuses da cidade e introduzir novas divindades — e à corrupção dos jovens. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
O contexto político de Atenas também é importante.
A cidade havia passado por décadas de guerra e instabilidade política. Alguns indivíduos associados a Sócrates, como Crítias, haviam participado do regime oligárquico dos Trinta, enquanto Alcibíades, outro personagem associado ao círculo socrático, havia se tornado uma figura politicamente controversa.
Isso não significa que Sócrates fosse responsável pelas ações dessas pessoas. Mas ajuda a compreender o ambiente político em que ocorreu seu julgamento.
A defesa de Sócrates
A principal fonte para conhecer o julgamento é a Apologia de Sócrates, de Platão.
Apesar do nome, “apologia” não significa pedido de desculpas.
A palavra vem do grego apologia, no sentido de defesa.
Na obra, Sócrates apresenta sua defesa diante dos cidadãos atenienses.
Ele não abandona sua atividade filosófica para tentar simplesmente agradar ao tribunal.
Pelo contrário: afirma que continuar examinando a si mesmo e aos outros é uma parte essencial de sua vida.
É nessa obra que aparece uma das imagens mais poderosas de Sócrates: a do filósofo que considera mais importante viver de maneira justa do que preservar a própria vida a qualquer custo.
Por que Sócrates não tentou escapar?
Depois de condenado, Sócrates foi preso e aguardou sua execução.
Seus amigos tentaram convencê-lo a fugir.
Essa situação é apresentada por Platão no diálogo Críton.
Críton argumenta que Sócrates deveria escapar. Afinal, seus amigos poderiam ajudá-lo.
Sócrates, porém, recusa.
A questão central do diálogo é:
É correto cometer uma injustiça para escapar de uma injustiça?
A resposta socrática é negativa.
Se ele acredita que cometer injustiça é errado, não pode simplesmente abandonar esse princípio quando sua própria vida está em risco.
O Críton é, portanto, uma das melhores obras para compreender a coerência entre a filosofia de Sócrates e sua própria maneira de viver. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
A morte de Sócrates
Sócrates foi condenado à morte e executado em 399 a.C., tradicionalmente descrito como tendo bebido cicuta.
O episódio é narrado por Platão em Fédon, embora seja importante lembrar novamente que Fédon é uma obra de Platão, não de Sócrates.
Nesse diálogo, Sócrates passa seus últimos momentos discutindo questões como a alma, a morte e a filosofia.
É justamente aqui que precisamos fazer uma distinção importante.
Embora Fédon seja uma das obras mais famosas associadas à morte de Sócrates, não é necessariamente uma fonte tão próxima do pensamento histórico de Sócrates quanto a Apologia.
A interpretação acadêmica predominante costuma considerar os diálogos iniciais de Platão mais próximos da representação do Sócrates histórico, enquanto obras posteriores desenvolvem ideias que pertencem ao projeto filosófico de Platão. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
As “obras de Sócrates”: afinal, o que ler?
Aqui está uma distinção essencial:
Sócrates não possui obras escritas.
Portanto, não existe uma lista como:
- “Livro 1 de Sócrates”
- “Livro 2 de Sócrates”
- “Tratado sobre a virtude”
- “Tratado sobre a justiça”
Essas obras não existem.
Quando alguém procura “livros de Sócrates”, na prática está procurando obras de outros autores que apresentam Sócrates.
Para começar, podemos dividir essas leituras em três grupos.
1. Platão: o melhor ponto de partida
Se você quer conhecer o Sócrates que se tornou fundamental para a história da filosofia, Platão é o autor mais importante para começar.
Não é preciso ler todos os diálogos de Platão.
Para conhecer Sócrates, uma boa sequência inicial é:
1. Eutífron
É uma excelente introdução ao método socrático.
Sócrates encontra Eutífron, que afirma compreender o que é piedade.
Sócrates então pergunta, essencialmente:
O que é a piedade?
A conversa mostra muito bem como Sócrates questiona definições aparentemente óbvias.
Além disso, o diálogo acontece no contexto do processo que seria movido contra Sócrates.
2. Apologia de Sócrates
Esta é a obra que eu mais recomendaria para alguém que quer começar a estudar Sócrates.
Ela apresenta sua defesa durante o julgamento e concentra muitos dos elementos fundamentais da imagem socrática:
- sua missão filosófica;
- sua investigação sobre a sabedoria;
- sua consciência da própria ignorância;
- sua relação com o oráculo de Delfos;
- sua atividade de questionamento;
- sua preocupação com a virtude;
- sua posição diante da morte;
- sua concepção de uma vida examinada.
A Apologia é geralmente considerada uma das obras platônicas mais próximas do Sócrates histórico. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)

3. Críton
Depois da Apologia, leia Críton.
A situação é simples:
Sócrates está preso e seus amigos querem ajudá-lo a fugir.
Mas ele se recusa.
O diálogo permite compreender profundamente sua concepção de justiça, especialmente a ideia de que não devemos cometer uma injustiça simplesmente porque alguém cometeu uma injustiça contra nós. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
4. Mênon
Depois desses três, Mênon é uma ótima continuação.
Aqui entram questões como:
- O que é a virtude?
- A virtude pode ser ensinada?
- Como podemos procurar aquilo que não conhecemos?
- O que significa aprender?
O diálogo também é importante para compreender o desenvolvimento de questões que posteriormente ganharão uma formulação mais claramente platônica.
5. Laques
Laques é particularmente interessante para entender o método socrático.
O assunto central é a coragem.
Os personagens acreditam saber o que é ser corajoso, mas Sócrates começa a investigar suas definições.
É um ótimo exemplo da estrutura típica dos diálogos socráticos.
6. Cármides
Aqui a investigação se concentra na temperança ou moderação (sophrosyne).
Mais uma vez, Sócrates procura descobrir o que exatamente significa uma virtude.
7. Protágoras
Esse diálogo é especialmente interessante para compreender a relação entre Sócrates e os sofistas.
A discussão envolve questões como:
- o que é a virtude;
- se a virtude pode ser ensinada;
- se as diferentes virtudes são realmente diferentes;
- qual é o papel do conhecimento na ação moral.
É um dos diálogos mais ricos para compreender a filosofia socrática.
E depois? Platão além do Sócrates histórico
Depois de conhecer os diálogos mais socráticos, vale avançar para obras como:
- Banquete;
- Fédon;
- República;
- Fedro.
Mas aqui é importante mudar a expectativa.
Esses textos são fundamentais para entender Platão, e não simplesmente Sócrates.
Em obras do período intermediário de Platão aparecem ideias como:
- a teoria das Formas;
- a imortalidade da alma;
- a teoria da reminiscência;
- uma concepção mais desenvolvida da justiça;
- a divisão da alma;
- a relação entre conhecimento e realidade.
Embora Sócrates continue sendo o principal interlocutor em muitas dessas obras, isso não significa que tudo o que ele diz possa ser historicamente atribuído ao Sócrates que viveu em Atenas. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Por isso, ler a República para conhecer Sócrates é diferente de ler a Apologia para conhecer Sócrates.
A República é indispensável para estudar Platão, mas não deve ser tratada simplesmente como “um livro que Sócrates escreveu”.
2. Xenofonte: outro retrato de Sócrates
Depois de Platão, vale conhecer Xenofonte.
As principais obras são:
Memoráveis
É provavelmente a obra de Xenofonte mais importante para quem quer conhecer seu retrato de Sócrates.
Xenofonte apresenta diversos episódios e conversas envolvendo o filósofo e procura defendê-lo contra acusações de que ele teria sido uma influência negativa sobre os jovens.

Apologia de Sócrates
Também apresenta a defesa de Sócrates diante de seu julgamento.
Compará-la com a Apologia de Platão é particularmente interessante.
Você verá que não existe apenas um retrato de Sócrates.

Banquete
Também é interessante comparar com o Banquete de Platão.
Os dois autores apresentam Sócrates em um ambiente de convivência e discussão, mas o estilo e o retrato do filósofo são diferentes. Infelizmente não encontrei o volume na Amazon, mas vale a pena buscá-lo em outro lugar para realizar a leitura.
3. Aristófanes: veja como os inimigos o enxergavam
Por fim, vale ler As Nuvens, de Aristófanes.

Não leia essa obra como uma biografia confiável de Sócrates.
Leia-a como uma oportunidade de descobrir como Sócrates poderia ser percebido por seus críticos e pelo público ateniense.
Isso é importante porque nos impede de construir uma imagem excessivamente idealizada do filósofo.
Sócrates não foi simplesmente um “velhinho sábio que todos admiravam”.
Ele era uma figura controversa.
Fazia perguntas incômodas.
Humilhava intelectualmente pessoas que se consideravam sábias.
Questionava autoridades.
E podia ser percebido como uma ameaça à ordem intelectual e social de Atenas.
Uma ordem de leitura para iniciantes
Se você nunca leu nada sobre Sócrates, não precisa começar por uma coleção completa das obras de Platão.
Eu recomendaria esta sequência:
Primeiro contato
1. Apologia de Sócrates — Platão
↓
2. Críton — Platão
↓
3. Eutífron — Platão
↓
4. Mênon — Platão
↓
Para aprofundar o método socrático
5. Laques — Platão
↓
6. Cármides — Platão
↓
7. Protágoras — Platão
↓
Para conhecer outros retratos
8. Memoráveis — Xenofonte
↓
9. Apologia de Sócrates — Xenofonte
↓
10. As Nuvens — Aristófanes
↓
Para avançar de Sócrates para Platão
11. Banquete — Platão
↓
12. Fédon — Platão
↓
13. República — Platão
Essa sequência permite ao leitor perceber uma transição importante:
Sócrates → Sócrates de Platão → Platão.
Por que ler Platão para conhecer Sócrates?
Essa é uma das partes mais interessantes da história.
Sócrates não deixou livros, mas Platão transformou as conversas socráticas em uma das maiores tradições literárias e filosóficas da humanidade.
Platão não escreveu tratados filosóficos no formato que encontramos posteriormente em Aristóteles. Ele escreveu principalmente diálogos.
Neles, pessoas conversam, discordam, fazem perguntas, apresentam argumentos e descobrem dificuldades.
Isso faz com que o leitor não receba simplesmente uma lista de respostas.
Ele acompanha a investigação.
E isso combina perfeitamente com a imagem tradicional de Sócrates como alguém que não simplesmente entrega respostas prontas, mas obriga seus interlocutores a pensar.
Sócrates não era um filósofo que “dava respostas”
Talvez essa seja a melhor maneira de entender sua importância.
Em muitos diálogos, Sócrates termina sem fornecer uma definição definitiva.
Ele pergunta:
O que é justiça?
E a resposta não é satisfatória.
Pergunta:
O que é coragem?
A definição também apresenta problemas.
Pergunta:
O que é piedade?
Novamente surge uma dificuldade.
Isso pode ser frustrante para quem está começando a estudar filosofia.
Mas essa frustração faz parte da experiência socrática.
A filosofia começa quando percebemos que nossas respostas aparentemente óbvias talvez não sejam tão sólidas quanto imaginávamos.
Sócrates e a importância de fazer perguntas
É por isso que Sócrates continua tão atual.
Ele não nos deixou um manual explicando como viver.
Não escreveu um tratado sobre ética.
Não criou uma teoria completa sobre o universo.
Em vez disso, deixou uma atitude intelectual:
perguntar.
Perguntar o que realmente sabemos.
Perguntar por que acreditamos em alguma coisa.
Perguntar se nossas opiniões são coerentes entre si.
Perguntar se estamos vivendo de acordo com aquilo que dizemos valorizar.
E, principalmente, ter coragem para admitir:
“Talvez eu esteja errado.”
Essa disposição para reconhecer a própria ignorância não é fraqueza para Sócrates.
É o começo da sabedoria.
Afinal, quem foi Sócrates?
Sócrates foi um filósofo ateniense que viveu aproximadamente entre 470/469 e 399 a.C. e que transformou a filosofia ao colocar a investigação sobre a vida humana, a virtude, a justiça e o conhecimento no centro de sua atividade intelectual.
Ele não escreveu livros.
Não deixou tratados.
Não criou um sistema filosófico completo que possamos reconstruir diretamente de seus próprios textos.
O que temos são retratos feitos por outras pessoas.
Platão nos apresenta o Sócrates filósofo, questionador e comprometido com a investigação.
Xenofonte apresenta um Sócrates mais prático, moral e aconselhador.
Aristófanes apresenta uma caricatura satírica de uma figura intelectual controversa.
A comparação entre essas fontes deu origem ao chamado problema socrático: a dificuldade de determinar exatamente quais ideias pertenciam ao Sócrates histórico e quais foram desenvolvidas por seus discípulos, especialmente Platão. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Por isso, estudar Sócrates não significa simplesmente encontrar “o livro certo”.
Significa ler diferentes testemunhos e aprender a distinguir entre Sócrates histórico, Sócrates de Platão, Sócrates de Xenofonte e Sócrates representado por Aristófanes.
E talvez seja justamente essa ausência de uma obra escrita que tenha tornado sua figura tão poderosa.
Sócrates não nos deixou um livro para simplesmente abrir e consultar.
Ele nos deixou uma pergunta que continua atravessando a filosofia há mais de dois mil anos:
Como devemos viver?
Para começar a ler
Se você quiser conhecer Sócrates sem se perder, comece por apenas três obras:
1. Apologia de Sócrates, de Platão
Para conhecer sua vida, seu julgamento e sua missão filosófica.
2. Críton, de Platão
Para compreender sua concepção de justiça e sua decisão de aceitar a condenação.
3. Eutífron, de Platão
Para observar o método socrático funcionando na prática.
Depois, avance para Mênon, Laques, Cármides e Protágoras.
E, quando quiser enxergar Sócrates por outros ângulos, leia Xenofonte e Aristófanes.
A partir daí, você estará preparado para avançar para Banquete, Fédon e República — e perceberá algo ainda mais interessante: em determinado momento, estudar Sócrates começa inevitavelmente a se transformar em estudar Platão.
É justamente nessa fronteira que começa uma das questões mais fascinantes da história da filosofia: onde termina Sócrates e começa Platão?
Se você for estudar Sócrates e Platão logo em seguida:
Recomendo então que compre esta coleção abaixo, que tem todos os volumes que você irá precisar para estudar Platão e Sócrates. Assim, você não compra nenhum volume repetido. Além disso, vários dos volumes que citei são difíceis de serem encontrados de maneira avulsa.
Se os senhores resolverem comprar os volumes avulsos, recomendo muito fortemente os volumes da editora Edipro, já que foram traduzidos diretamente do grego e são mais fáceis de encontrar do que os traduzidos por Carlos Alberto Nunes. Se encontrarem as obras traduzidas por ele, porém, recomendo estas. A edição de A República que adicionei é da ediora Edipro, bem como a coleção Diálogos.
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Muito obrigada por ter lido até aqui. Abraços e até a próxima leitura! Tchau!








