Vale a pena ler O Retrato de Dorian Gray? (sem spoilers)

Existem alguns livros que apenas entretêm. Outros, porém, deixam uma sensação estranha depois da última página — como se alguma coisa tivesse mudado silenciosamente dentro de nós. O Retrato de Dorian Gray é uma dessas grande obras. Ela foi uma das minhas primeiras leituras clássicas, e até hoje continua sendo uma das mais inquietantes que já li.
Não pela história em si apenas, mas pela maneira como Oscar Wilde parece compreender certos lados da natureza humana que normalmente tentamos esconder de nós mesmos. Existe algo de profundamente observador nesse livro. Algo elegante, bonito e ao mesmo tempo desconfortável. É um livro que te arrepia, principalmente se você confiar nos que recomendam a leitura e comprar sem nem saber o que vai encontrar dentro (foi o que eu fiz, e foi uma experiência fenomenal, única). Nesses casos, te garanto que você não faz nem ideia do que vai encontrar. Essas leituras sem expectativa ou julgamentos pré concebidos são ótimas. Mas, para caso você queira saber mais sobre o livro, para ter certeza de que vale a pena, vamos dissertar mais sobre ele, sem spoilers. Assim, você pode ler com a tranquilidade de ter escolhido a obra a dedo. Vamos lá?
É difícil explicar exatamente a sensação que essa leitura traz. A atmosfera da obra em algumas cenas parece carregar um tipo de silêncio pesado, quase hipnótico. Algumas páginas têm diálogos tão inteligentes e bonitos que, por alguns instantes, o leitor quase se esquece de que existe algo errado acontecendo por baixo daquela estética refinada… E talvez seja justamente isso que torna a experiência tão perturbadora. Há esse contraste forte entre a beleza e o hediondo.
Ao longo da leitura, percebemos o quanto O Retrato de Dorian Gray fala sobre temas que continuam extremamente atuais, mesmo tendo sido publicado em 1890: a vaidade humana, a obsessão pela imagem, a influência das amizades sobre quem nos tornamos, a facilidade com que normalizamos certos comportamentos quando eles vêm embalados em beleza, carisma ou status… tudo isso aparece no livro de maneira muito sutil e psicológica. É absolutamente genial. Wilde apenas coloca o leitor diante de certos comportamentos humanos e deixa que o desconforto faça o resto.
Conexões do livro com a vida real
Depois que terminei essa leitura, estive em várias situações nas quais me lembrei de cenas, diálogos e ideias do livro observando pessoas reais. É consenso que livros clássicos costumam mudar nossa perspectiva sobre a alma humana, e existem vários livros que nos trazem grande evolução como seres humanos… Mas, junto dos livros de Dostoiévski, tenho a opinião pessoal de que o Retrato de Dorian Gray é um dos melhores livros para estudo do comportamento humano. E vai além disso: o livro traz uma sensação de quebra de inocência muito forte, e nos faz refletir sobre aspectos profundos do nosso interior, e sobre quem pensamos ser.
O Retrato de Dorian Gray me deixou mais observadora também para com as minhas amizades. Sobre influência. Sobre o quanto algumas pessoas conseguem tornar ideias perigosas atraentes apenas pela maneira bonita com que falam delas. Sobre como o ser humano, às vezes, prefere parecer bom em vez de realmente ser. Existe um tipo de vaidade muito mais profunda no livro do que apenas aparência física.
A obra conversa bastante com o mito de Narciso, o personagem da mitologia grega que se apaixona pelo próprio reflexo. Mas, em Dorian Gray, essa ideia ganha camadas muito mais complexas e humanas. Wilde parece entender que a vaidade não existe apenas na aparência: ela também aparece na forma como queremos ser admirados, desejados, invejados e socialmente aceitos.
Talvez por isso o livro continue tão atual. Hoje, vivemos em uma cultura extremamente visual, em que imagem pessoal virou quase uma identidade. Redes sociais, estética, validação constante, necessidade de parecer feliz o tempo inteiro… ler esse clássico em pleno século XXI causa uma sensação quase desconfortável de familiaridade.
O contexto em que o livro foi escrito
Uma das coisas que tornam a leitura ainda mais rica é conhecer um pouco do contexto histórico da obra.
O Retrato de Dorian Gray foi escrito durante a Era Vitoriana, um período marcado por forte moralismo social, obsessão por reputação e enorme preocupação com aparências públicas. Ao mesmo tempo em que a sociedade inglesa valorizava elegância e refinamento, existia também muita repressão emocional e hipocrisia social escondida sob essa superfície impecável.
E Wilde parece enxergar tudo isso com uma clareza assustadora.
Existe quase uma ironia constante na forma como os personagens falam sobre prazer, moralidade, beleza e influência. Em muitos momentos, parece que o autor está discretamente provocando a própria sociedade em que vivia.
A própria vida de Oscar Wilde torna a obra ainda mais interessante. Extremamente inteligente, carismático e conhecido por seu humor afiado, ele acabou sendo uma figura polêmica na época em que viveu. Após alguns julgamentos, foi condenado à pena de reclusão por dois anos, por “atos de flagrante indecência”, isso porque muitos dizem que ele teria tido envolvimento com um outro homem (algo que, na época, era muito mal visto). Talvez por isso exista algo tão humano na maneira como ele escreve sobre reputação, desejo e julgamento social.
Jung, a “sombra” e o lado que escondemos de nós mesmos
Uma das interpretações mais interessantes do livro, para mim, é a relação que ele tem com ideias que seriam discutidas mais tarde por Carl Jung.
Jung falava sobre a “sombra”: partes moralmente desconfortáveis da personalidade que preferimos esconder, negar ou ignorar. E existe algo em Dorian Gray que conversa muito com isso. O livro inteiro parece explorar a distância entre a imagem que mostramos ao mundo e aquilo que realmente existe dentro de nós.
Talvez seja por isso que a leitura incomode tanto. Porque, em algum nível, o livro não fala apenas sobre um personagem. Ele fala sobre fragilidades humanas muito universais.
Por que vale a pena ler clássicos assim?
Muita gente evita clássicos por imaginar que serão leituras cansativas ou difíceis. Mas acredito que existem livros que conseguem ampliar nossa percepção sobre pessoas, relações e até sobre nós mesmos. Não são feitos apenas de uma história interessante. São experiências psicológicas, estéticas e emocionais muito únicas.
Sinceramente, acho que parte da beleza desse livro está justamente no fato de existir algo que cada leitor precisa descobrir sozinho durante a leitura.
Talvez seja por isso que tantas pessoas continuem fascinadas por ele depois de mais de um século.
Porque alguns livros envelhecem, e outros parecem cada vez mais atuais. Junto de autores como Dostoiévski e Machado de Assis, Oscar Wilde ganhou um espaço grande no meu hall de autores para mudar a vida.
A edição de O Retrato de Dorian Gray que recomendo
A edição que escolhi foi a da editora Penguin-Companhia. A tradução é fluída, agradável e consegue manter muito bem a elegância da escrita de Oscar Wilde sem deixar a leitura cansativa. Foi feita por Paulo Schiller, que é médico pediatra, psicanalista e tradutor do húngaro, do inglês e do francês. Nem preciso dizer que é uma ótima tradução.
Além disso, a edição costuma ter um preço relativamente acessível, o que ajuda bastante para quem quer começar a ler clássicos sem gastar tanto.
Uma coisa que considero importante em livros clássicos como O Retrato de Dorian Gray é justamente encontrar uma tradução que preserve a atmosfera da obra, e geralmente a editora Penguin cumpre muito bem esse papel. Como o livro possui diálogos muito marcantes e uma escrita bastante estética, uma tradução ruim pode deixar a experiência mais “seca” do que deveria ser — e felizmente não senti isso nessa edição.
Assim, deixo aqui o link para quem quiser já cortar caminho para a Amazon:
Muito obrigada por ter lido até aqui. Nos vemos em uma próxima leitura!
